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Narciso

Há casas e casas.


Para algumas delas, retornamos de tempos em tempos, porém nunca vamos para o mesmo lugar.


Revisitar espaços físicos por meio do devaneio, é como olhar para o espelho interno da memória.


Espelho de água à luz do luar, ao olhar para o reflexo do passado, a visão pode ser extasiante,
porém perigosa. O outro lado clama por um paralelismo, um desvio, uma imersão sensorial.


Entretanto, ao mergulhar no reflexo da memória, as águas podem parecer familiares, porém nunca
nos levam às mesmas correntezas.


Temos nossos próprios lagos, para os quais sempre retornamos eventualmente. Construímos
nossos mundos particulares, existir no agora é sempre estar em transição. A virtualidade material
se torna obsoleta e é substituída pelo imaterial, e há constantes mergulhos entre o devaneio e o
(in)concreto.


Curamos nossas ruínas particulares, nossos pequenos templos da matéria, portais retangulares
onde revisitamos vestígios da existência. Um recorte, um segundo eternizado do tempo - observar
uma imagem é se inserir nela, e há uma relação entre o estado de reflexão e um construto mental.


Jardins, casas, memórias, os caminhos da reminiscência são construídos por meio desses espaços.


Ao passo em que avançamos em direção à um futuro incerto, onde, com uma mão na frente e outra
atrás, mergulhamos cada vez mais nessa dicotomia nostálgica, da qual surge um luto, uma
necessidade por algo tão intangível quanto sensorial, um fragmento do tempo.


Assim como o reflexo de Narciso, esse objeto de desejo, além de ser uma ilusão, não pode ser
alcançado, pois habita e cresce em cima dessa impossibilidade. É como o fruto proibido, boiando
sobre a água; sua força de atração continua a chamar para si mesmo.


O que somos então, se não Narcisos? Diante do imediatismo contemporâneo, onde o motto é o
"tudo agora", entre a montanha arcádica da posterioridade e o lago da memória.


A nostalgia é uma amálgama, um condicionamento de todos os resquícios de um tempo, cores,
cheiros, texturas, sons, cristalizados em ondas singulares que dançam nas águas da mente.


Nos resta vivenciar estes pequenos devaneios, e perigosamente habitar essa margem do lago, onde
o conhecimento da real veracidade desse reflexo não subtrai a sua sedução.


Porém como todo devaneio, ele existe apenas por um momento fugidio, e logo acaba.
É preciso tirar as roupas da máquina e voltar ao trabalho.

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                       Matheus Hartman, Narciso, texto, 2020.

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Maria Alice Soares Sant'Anna. Notas cotidianas: um documentário íntimo sobre nada, vídeo experimental, HD, 16.9, 8'26", 2020

Matheus Hartman, Na nova época, calenda

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Matheus Hartman. Na nova época, calendários em máquina de lavar, fotografia digital, 2020